
Clássica como o mestre, essa coletânea também veio para ficar.
Melhor homenagem o velho Lula não poderia ter: um grupo de artistas da terra, na sua maioria jovens, e um pequeno magote de convidados de outras paragens reconstruindo com amor clássicos inesquecíveis e faixas menos conhecidas – mas não menos saborosas – do seu repertório. Foi assim, do desejo de reverenciar corretamente o grande mestre, que surgiu a coletânea Baião de Viramundo, o primeiro lançamento do Candeeiro Records.
Para os desavisados, a tarefa de mexer com as notas traçadas pela sanfona mais influente da nossa música pode ter parecido quase um sacrilégio. Mas os que já conheciam a riqueza da “cena do Recife” não duvidaram um tantinho do sucesso da empreitada. Dito e feito: Nação Zumbi, Mundo Livre, Eddie, Mestre Ambrósio, Cascabulho e muitos outros souberam aliar reverência e liberdade na medida certa. Uns optaram por recriações quase literais do material original. Outros seguiram caminho diverso, tomando atalhos que levaram ao Drum and Bass, ao Hip Hop e a outras invenções dos últimos anos. Num caso ou noutro, quem guiou os passos foi sempre a paixão pela batida certeira e a poesia do rei do Baião. Tanto afeto só podia gerar coisa boa!
Ao chegar às lojas, no final em dezembro de 1999, em parceria com o selo paulista Y Brazil?, Baião de Viramundo foi considerado de imediato um dos melhores discos da safra recente da música brasileira. “Quando o Recife vai parar de nos surpreender?”, é o que perguntavam público e crítica espalhados por todo o território nacional e o exterior (o disco foi licenciado lá fora pelo selo inglês Stern). Até o New York Times, lá em cima na América, mostrou-se encantado, colocando-o como o “melhor da semana” no segmento de música independente, segundo avaliação do renomado crítico Ben Hatliff.
Quase quatro anos depois, Baião de Viramundo continua a manter seu encanto. O acabamento gráfico do disco é de primeira. O repertório cobre todas as fases da carreira de Luiz Gonzaga, da época onde os donos das rádios o proibiam de vestir roupas de vaqueiro, passando pela explosão do Baião na década de cinquenta, até o ostracismo dos tempos da Jovem Guarda e o retorno triunfante no início dos setenta. As experimentações ainda soam instigantes. As recriações fiéis permanecem cheias de emoção. Clássica como o mestre, essa coletânea também veio para ficar. Uma estréia (a do Candeeiro Records) que não podia ser melhor.
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